quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

'Black sites' - Kenneth Maxwell

O Open Society Institute, estabelecido pelo investidor e filantropo George Soros para "promover os direitos humanos e o governo democrático", agora tem alcance mundial e acaba de publicar um relatório assustador sobre as atividades secretas de detenção e extradição não judicial da Agência Central de Inteligência (CIA), desde os ataques terroristas aos EUA em 11 de setembro de 2001. O relatório "Globalizing Torture" é um estudo detalhado e bem documentado sobre aquilo que o ex-vice-presidente americano, Dick Cheney, descreveu como "o lado escuro", no qual, como ele disse, "temos de viver nas sombras do mundo da inteligência". Depois do 11 de Setembro, a CIA realizou detenções secretas, e terroristas foram encarcerados em prisões da agência, conhecidas como "black sites", fora dos EUA. Nelas, eram usadas as chamadas "técnicas amplificadas de interrogatório", que envolviam tortura e outros abusos. A CIA também recorria a extradições não judiciais a fim de transferir prisioneiros, sem processo judicial, para prisão e interrogatório em outros países, bem como para a penitenciária administrada pelo Departamento de Defesa americano em Guantánamo. O presidente Teddy Roosevelt, em 1903, adquiriu a base naval de Guantánamo, em Cuba, para os EUA, em caráter perpétuo. O relatório do Open Society identifica o envolvimento de 54 outros países, alguns dos quais abrigaram prisões da CIA nas quais detentos foram interrogados e torturados. O estudo oferece detalhes sobre 136 casos individuais. Portugal é um dos países mencionados, por ter permitido o uso de seu espaço aéreo e de aeroportos para voos associados à CIA. Em 2007, um relatório do Parlamento Europeu mencionava 91 escalas em Portugal, em viagens de e para Guantánamo. Mas Portugal não estava sozinho. E nem foi o pior caso. O "Washington Post" publicou um mapa no qual todos os países envolvidos estão delineados em vermelho. Excetuada a baía de Guantánamo, a América Latina é notável pela ausência. Greg Grandin, professor de história na Universidade de Nova York, atribui o fato à amarga experiência da América Latina depois do apoio da CIA ao golpe na Guatemala em 1952 e ao consórcio terrorista transnacional da Operação Condor, nos anos 70 e 80, que fez da América Latina o protótipo para a guerra ao terrorismo que Washington empreendeu no século 21. Mas também agiu como antídoto. Grandin diz que o governo Lula rejeitou "múltiplas" solicitações de Washington para que o Brasil recebesse prisioneiros libertados de Guantánamo. E aponta que Dilma Rousseff foi vítima de tortura pelo regime militar do Brasil, nos anos 70. KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna. Tradução de PAULO MIGLIACCI http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/94809-black-sites.shtml

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A explosão de liberdade - Jânio de Freitas

19/02/2013 Na amazônia de textos provocada pela renúncia de Bento 16 há algo mais, e não percebido, do que as especulações, apreciações e, às vezes, notícias. Nunca o jornalismo, tanto impresso como por transmissão, tratou com tamanha liberdade um papado, a personalidade de um papa e a própria Igreja Católica. A despeito da sua riqueza de sentidos pregressos e de implicações presentes, a grandiosidade deste fenômeno é sinal e parte de uma grandeza ainda maior, que é a modificação dos costumes, ainda incompreensível na sua real dimensão --como demonstra o insuspeitado transbordamento de liberdade verbal suscitado por Bento 16, sem dúvida, à sua revelia. Mesmo entre os "países católicos", o Brasil é a presença mais novidadeira no fenômeno. França, Itália e Alemanha, baluartes do catolicismo e repositórios das correntes mais retrógradas da Igreja, valiam-se da sobriedade e da densidade para permitir-se alguma presença no jornalismo, informativa e analítica, das políticas da Cúria Romana e da alta hierarquia católica nesses países. Isso, desde muito tempo. Nos Estados Unidos, a presença pouco significativa do catolicismo reduziu, quase a zero, o interesse da imprensa americana pelo tema. Ocasionais notícias de relevo, sim, e nada mais. Na imprensa brasileira, o slogan da moda foi antecipado em muito tempo: "tolerância zero". Desde que posso dar testemunho profissional e pessoal, quando João 23 oxigenou a Igreja com a redescoberta do cristianismo, no Brasil o cardeal Jayme Câmara e seu ponta-de-lança cônego Bessa impuseram uma regra simples: aqui, não! Mesmo para manter no "Jornal do Brasil" os dois artigos semanais do pensador católico Alceu Amoroso Lima (ou, como também se assinava, Tristão de Athayde), presidente do Centro Dom Vital de estudos católicos, foi uma batalha que, descrita hoje, pareceria invenção barata. O imenso "doutor Alceu" entregara-se a reflexões com as premissas simpáticas a João 23, como seria próprio da sua condição de maior intelectual católico daquelas décadas de 50 e 60. Apesar dessa estatura, ele e seus correligionários afinal perderam, mas não assisti à sua saída. Perdera antes dele, por aquela e por outras batalhas, estas no nível mais modesto que se limita ao jornalismo. A grande engrenagem de populismo e culto à personalidade, que deu ao polonês João Paulo 2º a força para o seu ajuste de contas com os regimes comunistas, não incluiu a coerção tradicional praticada pela hierarquia clerical. Nem precisaria. Na maior parte do mundo, os meios de comunicação tornaram-se pequenos pravdas e izvestias para João Paulo 2º, como os dois jornais soviéticos projetaram o culto à personalidade de Stálin. O final penoso de João Paulo 2º e do seu papado estiveram ainda sob o clima dos 23 anos de suas conquistas emotivas. O que fugiu a esse clima avassalador, aventurando-se em alguma reflexão sobre o papado extinto e seus legados, foi muito pouco. E ainda é. A personalidade Ratzinger do papa Bento 16 e as características do seu papado por certo contribuíram para que se arrebentassem os cadeados. Criaram, talvez, a vontade, mas a transformação da vontade em exercício, com a largueza de liberdade que se concedeu, precisa de outra explicação. Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na versão impressa do caderno "Poder" aos domingos, terças e quintas-feiras.

Ratzinger e Martini - Wálter Maierovitch

No ano da fé, o papa Ratzinger apontou como causa do seu ato de renúncia aquilo que os geriatras diagnosticam como “síndrome da fragilidade”. Algo inevitável quando, já na estação do inverno, alcançam-se os 85 anos de idade. Não se trata de doença, mas da perda dos vigores físicos e do ânimo, mantido o intelectual. “Não tenho mais forças, me perdoem”, disse. Poucos acreditam na “síndrome da fragilidade” e no incontido desejo de Ratzinger de voltar aos livros. Quem deseja isso não deixa uma encíclica a caminho do prelo e não declara que continuará a residir nos jardins do Vaticano, no monastério Mater Ecclesiae, recentemente restaurado. Na sua vida sacerdotal e até chegar a papa, Ratzinger sempre esteve perto do poder e participou, com intervenções progressistas, nos trabalhos desenvolvidos no Concílio Vaticano II, obra de reformulação iniciada por João XXIII. Grande é o elenco das causas de renúncia dadas como reais. Só não é maior ao das críticas por ele “jogar a toalha”. A mais acerba crítica veio de Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia e ex-secretário do papa Wojtyla: “Da cruz não se desce”. Leia mais: Editorial: Cristo traído Bento XVI pode surpreender nos soberanos 15 dias finais O pontificado de Bento XVI foi marcado por desacertos e confusões, com destaque para os escândalos dos sacerdotes pedófilos, do Instituto para as Obras Religiosas (IOR), conhecido como Banco do Vaticano, da fuga de documentos e informações a envolver o condenado e perdoado mordomo Paolo Gabriele, do complô de assassinato do papa, transmitido a ele no ano passado pelo monsenhor Luigi Bettazzi e pelo cardeal Paolo Romeo (que desmentiu depois) e pela permanente luta intestina de poder entre alas. Além disso, Ratzinger desgastou-se por conta própria, por exemplo, ao atacar o islamismo e, por tabela, o profeta Maomé. Ou quando forçou uma reaproximação com os lefebvrianos, com muitos nazifascistas de batina. E ao apressar a santificação do papa Pacelli, que silenciou quando judeus foram aprisionados em Roma e enviados para campos de concentração nazistas. Deve ser consignado que Ratzinger tentou se corrigir. Pregou no Muro das Lamentações e visitou uma sinagoga. As retratações, nos mundos islâmico e judaico, reforçaram as desconfianças, apesar do sustentado em contrário pelas diplomacias. Não se deve olvidar, no campo dos “desgastes fatais”, como lembra o jornalista e historiador Corrado Augias na sua obra I Segreti del Vaticano, a inicial resistência de Ratzinger em admitir os casos denunciados de pedofilia por parte de sacerdotes e a tentativa, com o cardeal Soldano à frente, de considerar tudo chiachiericcio (conversa mole). A mudança de atitude só veio depois de duros editoriais no The New York Times, Der Spiegel, El País, Le Monde e La Repubblica. E, lembra Augias, a resistência de Ratzinger cedeu após a publicação, em 9 de abril de 2010, pela Associated Press de uma carta de próprio punho, quando comandava o antigo Santo Ofício, na qual minimizava acusações de pedofilia contra o padre Stephen Kiesle, de Oakland, Califórnia. O reconhecimento e o pedido de perdão, em encontro com algumas vítimas, só aconteceram depois de muita resistência. No IOR, nunca foram cumpridas as ordens de Ratzinger de aplicação das normas antirreciclagem de capitais recomendadas pela União Europeia. A queda de Gotti Tedeschi, presidente do banco, ainda não foi explicada e, no momento, a magistratura italiana investiga a participação do IOR no escândalo do Banco Monte dei Paschi di Siena, um dos mais antigos em atividade no mundo e terceiro maior da Itália. Ratzinger, como até os coroinhas da outra margem do Rio Tevere sabem, perdeu o controle sobre a Cúria, composta de ministros escolhidos pelo próprio papa para ajudar na gestão da Santa Sé. Nas sombras das “muras leoninas”, é acusado de insistir em posições conservadoras e no discurso sobre o relativismo ético-moral. Isso teria afugentado fiéis, vocações e batismos na Europa. Na América Latina, abriu espaço para seitas evangélicas. O crescimento de católicos só se verificou na África e na Ásia, e isso pelo trabalho de clérigos progressistas e interessados em melhorar as condições materiais e sociais. Num resumo, e vale para vaticínios (termo derivado de Vaticano), é significativa a carta deixada pelo cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, falecido em agosto de 2012: “Há um tempo tinha sonhos sobre a Igreja. Uma Igreja que trilha pela estrada da pobreza e da humildade, uma Igreja independente dos poderes deste mundo… Uma Igreja que dá espaço às pessoas capazes de pensar de maneira mais aberta. Uma Igreja que infunde coragem, sobremaneira naqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje, não tenho mais esses sonhos. Depois dos 75 anos decidi orar pela Igreja”. Bento XVI deveria ter ouvido o cardeal morto em 2012. Martini pedia uma Igreja independente http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ratzinger-e-martini/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Para que tem servido o abaixo-assinado pela cassação do registro de psicólogo de Malafaia: (Por Waldir Santos)

1) Colocar o e-mail dos participantes na lista de endereços vendidos pelo site de abaixo-assinados, para empresas de SPAM; 2) Evidenciar a ignorância das pessoas em relação à inutilidade do documento, já que o que vai determinar a decisão do conselho de psicologia são os fatos, argumentos e a interpretação das normas, e não a quantidade de pessoas (ainda mais pessoas não filiadas) que discordam das coisas que ele pensa ou diz pensar. Basta um pedido individual no conselho regional para que o processo se inicie. O conselho federal não tem competência para cassar registros. Ele julga recursos, mantendo ou modificando a decisão dos regionais; 3) Dar publicidade ao pastor e suas ideias. Quem discorda dele jamais será seu seguidor, mas quem concorda com ele está tendo uma chance de conhecê-lo e se tornando seu fã; 4) Dar dá às pessoas a falsa sensação de que estão fazendo alguma coisa contra o que repudiam, o que lhes deixa numa falsa paz com a consciência. A cassação do direito de exercício da profissão geraria qual consequência, além de ampliar a sua legião de defensores? Retiraria a sua fonte de sobrevivência? Impediria que ele continuasse a divulgar seus pensamentos equivocados, invocando a condição de graduado em psicologia? Se abaixo-assinado valesse, será que ele não faria um com muito mais assinaturas usando seus tolos seguidores? Ser inscrito no Conselho de Psicologia garante apenas o direito de exercer a profissão, que, é bom que se lembre, ele não exerce. Ele continuará diplomado, com diploma registrado no Ministério da Educação. As pessoas não percebem que ele está rindo de todos e ganhando mais dinheiro com isso tudo?

Deus hipotético - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 17/02 Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição. A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas. Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão do comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo – o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma – seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição. Todas as religiões monoteístas compartilham da mesma hipótese, só divergindo em detalhes como o nome do seu deus. E todas têm causado o mesmo dano, em nome da hipótese. Não é preciso nem falar no fundamentalismo islâmico, que aterroriza o próprio islã . Há o fundamentalismo judaico, com sua receita teocrática e intolerante para a sobrevivência de Israel. O fundamentalismo cristão que representa o que há de mais retrógrado e assustador no reacionarismo americano, e as religiões neo-pentecostais que se multiplicam no Brasil, quase todas atuando no limite entre o curandeirismo e a exploração da crendice. A igreja católica pelo menos dá espetáculos mais bonitos, mas luta para escapar do obscurantismo que caracterizou sua história nestes 2000 anos, contra um conservadorismo ainda dominante. A hipótese de Deus não tem inspirado as religiões a serem muito religiosas. Há aquela parábola do Dostoiévski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo, que volta à Terra – o filho da hipótese tornado homem – para salvar a humanidade outra vez, já que da primeira vez não deu certo. Os dois conversam na cela onde Cristo foi metido por estar perturbando a ordem pública, e o Grande Inquisidor não demora a perceber que a pregação do homem ameaçará, antes de mais nada, a própria Igreja, a religião institucionalizada e os privilégios do poder. Não me lembro como termina a parábola. Desconfio que se fosse hoje, deixariam o Cristo trancado na cela e jogariam a chave fora.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Que tipo de Papa - Leonardo Boff

Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo? Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente. Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo. O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos o sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação. Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade. Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo? Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente. Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo. O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos o sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação. Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade. O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura. O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender. O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus. O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus. O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão. Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos) e a espiritualidade (roubo de documentos secretos e problemas graves de transparência no Banco do Vaticano). Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à mensagem cristã no interior de uma crise ecológica e social de gravíssimas consequências. O problema central não é a Igreja mas o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos. *Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor de Igreja: carisma e poder, livro ajuizado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger.

Quanto tempo...

Não tinha me dado conta do abandono deste blog, desde 2011. Voltarei a postar textos, nem que sejam de outras pessoas...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A falta que o respeito faz



A cultura moderna, desde os seus albores no século XVI, está assentada sobre uma brutal falta de respeito.

Primeiro, para com a natureza, tratada como um torturador trata a sua vítima com o propósito de arrancar-lhe todos os segredos (Bacon). Depois, para com as populações originárias da América Latina.

Em sua “Brevíssima Relação da Destruição das Indias”(1562) conta Bartolomé de las Casas, como testemunho ocular, que os espanhóis “em apenas 48 anos ocuparam uma extensão maior que o comprimento e a largura de toda a Europa, e uma parte da Ásia, roubando e usurpando tudo com crueldade, injustiça e tirania, havendo sido mortas e destruídas vinte milhões de almas de um país que tínhamos visto cheio de gente e de gente tão humana” (Décima Réplica).

Em seguida, escravizou milhões de africanos trazidos para as Américas e negociados como “peças” no mercado e consumidos como carvão na produção.

Seria longa a ladainha dos desrespeitos de nossa cultura, culminando nos campos de extermínio nazista de milhões de judeus, de ciganos e de outros considerados inferiores.

Sabemos que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros. O respeito, como o mostrou bem Winnicott, nasce no seio da família, especialmente da figura do pai, responsável pela passagem do mundo do eu para o mundo dos outros que emergem como o primeiro limite a ser respeitado.

Um dos critérios de uma cultura é o grau de respeito e de autolimitação que seus membros se impõem e observam. Surge, então, a justa medida, sinônimo de justiça. Rompidos os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe reconhecer o outro como outro e seu valor intrínseco seja pessoas ou qualquer outro ser.

Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov em seu recente livro “O medo dos bárbaros” (Vozes 2010) adverte que se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada.

O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Da Alsácia, era um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro “A história da pesquisa sobre a vida de Jesus” é um clássico por mostrar que não se pode escrever cientificamente uma biografia de Jesus.

Os evangelhos contém história mas não são livros históricos. São teologias que usam fatos históricos e narrativas com o objetivo de mostrar a significação de Jesus para a salvação do mundo. Por isso, sabemos pouco do real Jesus de Nazaré.

Schweitzer comprendeu: histórico mesmo é o Sermão da Montanha e importa vivê-lo. Abandonou a cátedra de teologia, deixou de dar concertos de Bach (era um de seus melhores intérpretes) e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E ai trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida.

Confessa explicitamente: ”o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum sentido. O que importa mesmo é tornar-se um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”.

No meio de seus afazares de médico, encontrou tempo para escrever. Seu principal livro é: ”Respeito diante da vida” que ele colocou como o eixo articulador de toda ética. “O bem”, diz ele, “consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver”.

E conclui: ”quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive”.

Como é urgente ouvir e viver esta mensagem nos dias sombrios que a humanidade está atravessando.



Leonardo Boff é autor de “Convivência, Respeito, Tolerância”,Vozes 2006.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Uma cidade aberta e segura

Nabil Bonduki 18 de agosto de 2010 às 16:10h

Empreendimentos que já nascem segregados, como shoppings centers, condomínios residenciais fechados, centros empresariais e seletos aglomerados de lazer, somam iniciativas ilegais de fechamento de áreas públicas. Por Nabil Bonduki

A cidade como lugar aberto e democrático onde “se respira o ar da liberdade”, como era entendida desde a Idade Média, vem sendo destruída pela crescente criação de empreendimentos segregados da malha urbana. Como castelos medievais, as cidades brasileiras estão se transformando numa somatória de áreas segmentadas, muradas, controladas por guaritas policiadas e por circuitos internos de televisão, num verdadeiro “big brother” urbano, que nos remete à apavorante sociedade em que os cidadãos são vigiados 24 horas.
A suposta falta de segurança é o argumento principal para este verdadeiro aparthaid urbano, que imita as sociedades racistas e divididas por conflitos étnicos e políticos. A ausência do Estado e o medo, difundido por programas televisivos, geram negócios imobiliários que se utilizam do marketing de segurança para vender produtos que se alimentam ainda da desigualdade e do preconceito social, que assolam não só as classes média e alta de uma sociedade muito desigual, como até mesmo setores populares que começam a ter alguma capacidade de consumo.

Aos empreendimentos que já nascem segregados, como shoppings centers, condomínios residenciais fechados, centros empresariais e seletos aglomerados de lazer, se somam iniciativas ilegais de fechamento de áreas públicas como ruas, loteamentos, vilas e conjuntos habitacionais, patrocinadas por associações de moradores e, muitas vezes, apoiadas pelas próprias prefeituras. Espaços públicos que, por lei, deveriam estar abertos a todos os cidadãos, são fechados por grades, muros, e cancelas. Taxas a título de condomínio – que legalmente inexistem – são cobradas ilegalmente de moradores por associações administradoras, numa dupla tributação que vem criando dívidas impagáveis e fortes conflitos entre os moradores adeptos e contrários a este tipo de iniciativa.

Este conceito de segurança está sendo colocado em xeque pela onda de assaltos a shoppings centers e a condomínios de luxo em São Paulo. Ao contrário do que muitos imaginavam, estes espaços fechados e segregados não garantem a almejada proteção. Desde o início de 2010, em São Paulo, 15 shoppings foram assaltados, com trocas de tiros, mortos e feridos; 11 condomínios de luxo foram invadidos por quadrilhas armadas, que tomaram por várias horas o controle do lugar, se apropriando das guaritas e dos circuitos internos de segurança para promover um arrastão sistemático de todo o prédio.
Este modelo urbano, que vem se consolidando no Brasil, baseado em bankers fortificados e armados, ao contrário de garantir a segurança, desnudam uma cidade cada vez mais insegura. Sua lógica se combina com uma mobilidade feita exclusivamente por automóveis individuais, que levam as pessoas de estacionamento a estacionamento, sem nenhum contato direto com o espaço público. Alguns paraísos do consumo sofisticado, como shoppings de luxo, não permitem mais o acesso a pé. À sua volta, longos muros criam ruas esvaziadas.

Este processo de desertificação de ruas, praças e parques tornam as cidades ainda mais inseguras, numa espiral decrescente que realimenta o despovoamento do espaço público. Voltados para áreas internas e controladas, lojas, residências, serviços e locais de lazer e cultura, como cinemas e teatros, deixam de se abrir para as calçadas públicas – quando elas existem – que se transformam em corredores vazios onde caminhar entre veículos em alta velocidade e altos muros reforçam a sensação de solidão e medo.

Será possível alterar essa tendência que levará ao desaparecimento da cidade como o lugar da liberdade, da democracia e do convívio humano aberto e sem descriminação? Evidências criam alguma esperança. No debate sobre a nova lei de parcelamento do solo, que há anos se processa no Congresso Nacional, várias entidades têm se posicionado contra a regulamentação dos condomínios fechados, que até hoje inexiste na legislação. O Ministério Público tem promovido ações exigindo a abertura de ruas, loteamentos, praias e espaços púbicos apropriados por particulares ou associações privadas. Moradores de loteamentos fechados irregularmente lutam na justiça contra o pagamento de taxas de condomínios formados sem seu consentimento.
Cresce a consciência de que é necessário reverter este processo. Algumas práticas cotidianas resistem ao desaparecimento da vida urbana. Jovens, de diferentes segmentos sociais, se apropriam de espaços públicos, com se vê nos finais de tarde entre a Avenida Paulista, a Rua Augusta e a Praça Roosevelt, em São Paulo e em tantos “pedaços” de outras cidades brasileiras, como nas orlas marítimas. Namoram, passeiam e se divertem num espaço seguro porque povoado. É crescente o número de pessoas que praticam caminhadas em ruas das cidades.

O comércio de rua, livres das altas taxas que pagam em shoppings, resistem dando vida aos bairros e oferecendo produtos e serviços mais baratos. Ruas se especializam na venda de produtos especializados, como eletrônicos ou madeiras. Na falta de espaços públicos de qualidade, postos de gasolina e suas lojas de conveniência se transformaram em ponto de referência nas noites quentes, mostrando que as pessoas querem viver em cidades abertas, mesmo quando inexistem ambientes adequados. Ciclistas lutam para ganhar espaço e segurança nas vias públicas, ainda apropriadas de forma individual e privada pelos automóveis. Transporte coletivo de qualidade tornou-se objeto de desejo para um crescente setor que já percebeu que é insustentável todos se deslocarem por automóveis.

Reverter o modelo urbano que vem se consolidando no país, baseado em territórios fechados, espaços públicos desertos, na segregação social e no carro como o principal modo de mobilidade, é uma necessidade civilizadora. Felizmente, há alguma luz no final do túnel.
Nabil Bonduki

Nabil Bonduki é arquiteto e professor de Planejamento Urbano da FAU-USP. Mestre e doutor em Estruturas Ambientais Urbanas.